"Eu não sou a Morte, sou simplesmente morte, a Morte é um cousa que aos senhores nem por sombras lhes pode passar pela cabeça o que seja, vossemecês, os seres humanos só conhecem esta pequena morte quotidiana que eu sou, esta que até mesmo nos piores desastres é incapaz de impedir que a vida continue, um dia virão a saber que é a Morte com letra grande, nessa momento, se ela, improvavelmente, vos desse tempo para isso, perceberíeis a diferença real que há entre o relativo e o absoluto, entre o cheio e o vazio, entre o ainda ser e o não ser já, e quando falo de diferença real estou a referir-me a algo que as palavras, se não o sabe, movem-se. mudam de um dia para o outro, são instáveis como sombras, sombras elas mesmas, que tato estão como deixaram de estar, bolas de sabão, conchas de que mal se sente a respiração, troncos cortados [...]".
José Saramago